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Meninos

palomakxk @ 02:17

Outro dia constatei: sou uma menina encalhada, com zero namorado à vista. E eu odeio tanto essa palavra: encalhada. Ô, palavrinha deprimente! O pior é que eu sou uma anta quando o assunto é o sexo oposto, tenho vocação para me apaixonar justamente pelos caras errados. Falta de sorte. Uma hora eu sei que o maravilhoso príncipe encantado com a cara do Paulinho Vilhena vai chegar junto e me pegar de jeito. Enquanto isso não acontece, do alto dos meus 15 anos, vou apenas beijando bocas, sem compromisso, supertribalista, conhecendo meninos com personalidades diferentes, hábitos diferentes, cabelos diferentes. Mas todos com uma coisa em comum: são iguaizinhos no que diz respeito a diálogo. Garotos simplesmente não dialogam. E não é que eles não gostem. Eles não sabem dialogar. Meu último namorico foi com o Estevão, aqui do prédio, e nossa relação começou a desgastar quando eu falava sobre um papel de bala depois do cinema. Tudo bem, sei que papel de bala é um assunto meio nada a ver, mas, pô, o cara não falava nada! Eu pre-ci-sa-va puxar assunto, tornar o clima agradável. Se eu não quebrasse a porcaria do silêncio acho que morreria sufocada. Meninos não são assim. Eles sempre, sempre preferem o silêncio. Enquanto eu dissertava sobre as maravilhas que podem ser feitas numa embalagem de bala e de chiclete, ele me olhava com cara de extraterrestre. Na verdade, me encarava como se eu fosse a extraterrestre desta história. - É tão esquisito... - O quê? - Vocês, meninas... Como falam, como são tagarelas. Você é a menina mais tagarela que eu já conheci. - Tagarela? Eu? Estava falando só para quebrar o silêncio, seu insensível! Ignorando-me solenemente em gênero, número e grau, ele continuou: - Vocês falam porque têm necessidade de emitir sons. Só por isso. Para vocês é normal falar o que se passa na cabeça, é normal pensar em voz alta. E é tão maluco... Estava aqui ouvindo você falar, mas é humanamente impossível prestar atenção em tudo o que você diz, acompanhar cada palavra que sai da sua boca. Que eu me lembre, até agora, você já falou de bala, de papel de bala, da Turma da Mônica, de castelos medievais e da qualidade das novelas do SBT. Ah! Você disse também que eu precisava passar vinagre de maçã no meu cabelo para tirar a oleosidade dele. Aí você emendou no novo namorado da sua amiga Juca, que eu nunca vi na vida, me contou a última do cabeleireiro da Rebecca, que eu desconheço, e ficou indignada com a chapinha japonesa caríssima que uma tal de Robertinha quer fazer. Para quê, meu Deus? Quem são essas pessoas? Qual a importância de monologar sobre esses assuntos? Qual é a dificuldade de pensar em silêncio? E o que é chapinha japonesa!? O que a gente perderia se não falasse da chapinha japonesa da sua amiga? - Caraca, como você é ridículo... E vocês, que só sabem falar de futebol e bunda? Não necessariamente nessa ordem! - Engano seu. O que vocês nunca vão entender é que nós só falamos quando temos algo a dizer, a comunicar. Não desperdiçamos palavras, não jogamos saliva fora. Que cara grosso, viu? Terminei tudo naquela noite mesmo. Mas nem fiquei triste. Poucos dias depois fui ao cinema com a Juca e ela me apresentou a um amigo, o Emílio, com quem conversei horas a fio. Falamos de vida, de música, de Chico, de Caetano, de Tom Zé, de Cinema Novo, de teatro, de livros, de maquiagem. Eu era a encarnação da felicidade. Tinha, enfim, encontrado um cara bacana, o cara certo para mim. E ainda por cima era lindo. No dia seguinte descobri que minha nova relação tinha um único empecilho: Emílio já estava namorando. O Eduardo. Isso mesmo, Emílio era gay. Convicto e muito feliz. Mas não desisto. Continuo à procura de um namorado bonito, engraçado, mais alto que eu, espirituoso, romântico e que goste de discutir a relação. É pedir demais?

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